O nascimento da indústria farmacêutica no Brasil

Abaixo segue a entrevista realizada por Paulo Henrique Moreira Filho, da REVISTASP, com Agnello Moreira em São Paulo.
HISTÓRICO
Agnello Moreira é uma viva demonstração de progresso alcançado por esforço próprio, dedicação, trabalho e vontade de vencer. Foi Gerente de Vendas de Propaganda da filial de Curitiba da Laborterápica Bristol. Admitido em 2 de janeiro de 1945, ainda garoto, foi sucessivamente: office boy, auxiliar de sessão de produção, auxiliar de embalagem de comprimidos, auxiliar de sessão de hipodermia, sendo promovido em 1950 a propagandista e, em 1956, passou a encarregado de equipe.
Em 1959 ocupou o cargo de assistente de propaganda e venda do setor interior e depois de 1959, viajou o Brasil inteiro,  visitando todas as filiais da Laborterápica/Bristol. Fez estágio em São Paulo, quando assumiu a filial em Mato Grosso e em Londrina, no Norte do Paraná. Depois passou por outras empresas, quando a Laborterápica foi incorporada pela Bristol. Na reestruturação da Empresa, passou para outra área da corporação – a área internacional, sendo responsável pela América Latina e América Central. Participou de Congressos Médicos sobre medicamentos para tratamento de câncer no Canadá e nos Estados Unidos. Fez cursos de genética no Canadá, em São Francisco, na Califórnia e em Atlanta, nos Estados Unidos. Aqui no Brasil, fez cursos e dirigiu equipes de propagandistas e vendedores de produtos farmacêuticos para patologias de tumores. Fez cursos de genôma, área onde se destacou como um dos maiores conhecedores de toda patologia genética do câncer.
Aposentou-se ocupando o cargo de Gerente de Negócios da Divisão Oncológica  na Eurofarma, empresa nacional que canalizou todo seu investimento nos produtos genéricos, sendo, hoje, especialista na área. A linha de  produtos para tratamento de câncer não era vista como uma especialidade dentro da medicina oncológica brasileira e internacional. Quando alcançou a idade de 70 anos, foi convidado a assumir uma área internacional de pesquisa de novas drogas através de Laboratórios na Espanha, no Canadá e no México.
 
UMA PASSAGEM INESQUECÍVEL
Agnello Moreira  foi sócio fundador e Vice-Presidente do Sindicato dos Propagandistas e Vendedores de Produtos Farmacêuticos do Estado de São Paulo, sendo o associado de n. 041. A sede inicial foi na Rua 7 de Abril, no 6o. andar, num conjunto de salas  cedido gratuitamente pelo Jornalista, dono dos Diários Associados, Dr. Assis Chateaubriant. Foi sua a responsabilidade de dirigir a Associação, que só mais tarde se transformou em Sindicato. Foi encarregado, pelo Diretor do Sindicato, Dr. Antonio Guirlanda, de prestar uma homenagem ao Dr. Assis Chateaubriant e a um dos diretores dos Diários Associados e da Revista O Cruzeiro, Dr. Edmundo Monteiro de Barros, quando lhes foi entregue uma placa comemorativa, em agradecimento ao fato dele ter cedido o imóvel para o Sindicato. Nesta oportunidade, o Dr. Chateaubriant fez um discurso brilhante, onde ele se identificou como um vendedor, haja vista que vendia notícias, e também um caixeiro viajante, pois andava atrás dos fatos que se transformavam na notícia que vendida o jornal. Ia em busca da notícia bem coerente, bem fundamentada. Esses documentos se encontram no Sindicato dos Propagandistas e Vendedores de Produtos Farmacêuticos do Estado de São Paulo.
Na ocasião, Agnello Moreira era muito jovem e, quando passou a descrever a indústria farmacêutica, o próprio Dr. Assis Chateaubriant ficou realmente entusiasmado, porque ele não conhecia como a indústria farmacêutica tinha nascido no Brasil. 
 
O NASCIMENTO DA INDÚSTRIA FARMACÊUTICA NO BRASIL
 
O nascimento da indústria farmacêutica brasileira se deu no período da última grande guerra, quando houve escassez de produtos farmacêuticos. Vários pequenos laboratórios foram montados para atender essa demanda, produzindo produtos similares aos americanos e europeus. Ocorre que começou a faltar matéria-prima, haja vista os alemães não deixarem os navios carregados, que vinham da Europa, chegarem na América Latina. Muitos desses navios foram afundados na costa brasileira. Foi aí que o Brasil se indignou e entrou na guerra contra os alemães. O Presidente Americano Roosevelt veio ao Brasil e em Natal, no Rio Grande do Norte, juntamente com Getúlio Vargas ( cujo filho era casado com uma Embaixatriz germânica), firmou um acordo, construindo uma Base Aérea no local, a maior da época,  e o Brasil se transferiu para o lado dos americanos, para combater o acesso dos alemães à África, onde havia uma facilidade de se reabastecer com petróleo, o combustível dos tanques de guerra e carros de assalto. De lá para cá (1939/1942), começou-se a produzir matéria-prima no Brasil. Era uma matéria muito insipiente, porque o Brasil não tinha tecnologia de pesquisa e houve muita dificuldade para se produzir produtos farmacêuticos, principalmente na área de produtos para tratamento de tuberculose pulmonar, a chamada TP. Foi quando o Brasil se desenvolveu nessa área de produção de matéria-prima.
Com o fim da Grande Guerra, as  indústrias farmacêuticas de pequeno porte foram, na sua maioria, incorporadas pelo capital americano, alemão e inglês. Tornaram-se comandadas por multinacionais. Agnello Moreira, nesta época, trabalhava na Laborterápica, a qual foi incorporada pela Bristol, que era um grupo americano da Califórnia, passando a se chamar Laborterápica Bristol, que produzia a tetraciclina, o antibiótico do momento. Os americanos queriam produzir outros medicamentos, mas o grupo brasileiro da Laborterápica não tinha capital para financiar a construção de um outro laboratório para pesquisa e o governo brasileiro também não. Foi quando a Bristol comprou metade das ações do capital brasileiro e passou a comandar a indústria no Brasil, passando de Bristol Americana, associada à Laborterápica, a  Bristol Labor. Nessa época começou-se a fabricar a penicilina, a tetraciclina, que era o antibiótico de última geração, um dos mais modernos da época, para tratamento das infecções urinárias e das blenorragias. Nesse momento, outras indústrias farmacêuticas americanas começaram a vir para o Brasil, adquirindo pequenos laboratórios brasileiros, para poder facilitar sua entrada aqui no país.
 
AGNELLO MOREIRA – O PIONEIRO NA PESQUISA DE MERCADO FARMACÊUTICO NO BRASIL
 
Agnello Moreira foi o pioneiro na pesquisa de mercado sobre produtos farmacêuticos no Brasil. Como sempre foi um homem muito dinâmico, chamou a atenção do Departamento de Marketing do Laboratório Laborterápica, tendo sido convidado a  viajar, juntamente com outros profissionais,  pelo país para levantar o perfil do médico e do mercado farmacêutico brasileiro. Dentre os profissionais, com os quais percorreu o Brasil, cita o Sr.  João Cláudio Pereira dos Santos (Presidente da Primeira Diretoria Provisória do GRUPEMEF ( Grupo dos Executivos do Mercado Farmacêutico)). Pouco se conhecia sobre o mercado farmacêutico brasileiro, muito menos, como se pesquisar esse mercado no Brasil.
 
 A FISIONOMIA DA MEDICINA DIAGNÓSTICA ATUAL
 
Para Agnello Moreira a Medicina está mudando a sua fisionomia, porque as doenças graves, como as cancerígenas – os chamados tumores neoplásicos, nascidos das  células que surgem de divisão inapropriada de uma célula mãe original -, estão sendo estudadas através do genôma. É  pela genética que se estuda a patologia dos portadores de tumores. Tudo isso trouxe uma necessidade aos médicos de se atualizarem nesse campo. Se o profissional médico não se atualizar nessa área, sua carreira tende a sofrer grandes reveses, porque a medicina, na atualidade, é chamada genética, dando maior valor ao médico geneticista do que ao grande médico cirurgião.  Hoje, na medicina diagnóstica, é preciso verificar  de que tamanho é o tumor, para ver suas dimensões, até onde chegou, até onde pode chegar e até onde se podem aumentar as probabilidades do paciente sobreviver e passar ileso pelos tratamentos quimioterápicos. A quimioterapia é uma forma de tratamento de doentes portadores de tumores neoplásicos que, apesar de ser muito forte e trazer algum sofrimento aos pacientes, pelos efeitos colaterais, tais como problemas hepáticos, queda de cabelo, problemas no sistema hematopoético, onde se forma a cadeia dos glóbulos brancos e vermelhos,   lhes dá uma forma de sobrevida muito maior da que existia até então.
 
 A INDÚSTRIA FARMACÊUTICA DE BIOTECNOLOGIA
 
Agnello Moreira afirma que hoje precisamos falar da Indústria Farmacêutica de Biotecnologia.  A hora é agora. Se não entrarmos nesse ramo agora, futuramente será tarde. Os laboratórios estrangeiros estão investindo muito pesado em biotecnologia, porque além de conseguirem, em muito menos tempo,  novas drogas, o custo é barateado, o que torna o produto mais acessível. A medicina tem dado sinais de que só usa produto farmacêutico de alta tecnologia, pois são produtos amplamente estudados sobre  suas vantagens, efeitos colaterais e sobre o que deixa de característica clínica e farmacológica, sendo o tratamento mais vantajoso por facilitar o objetivo maior que é o de salvar vidas. A medicina genética, neste sentido, estuda a probabilidade de a raiz  familiar do paciente vir a ter  genes que podem alterar seu comportamento genético. Se a pessoa tem um histórico familiar de um parente que morreu de câncer hepático, ou de estômago, é um paciente de risco. Isso também para o caso do câncer de mama – embora não haja uma unanimidade entre os pesquisadores, ainda não está claro em medicina genética, mas historicamente nos Estados Unidos, Inglaterra e França, há uma coincidência forte – , o que chama a atenção dos pesquisadores é que geneticamente as pessoas que tiveram em sua família, nas gerações anteriores casos de câncer, elas provavelmente levam os genes para a segunda, terceira, quarta ou quinta geração. Assim, os laboratórios que não se enquadrarem nas pesquisas genéticas, não transformando seus laboratórios de drogas simples, irão sofrer um grande abalo pela concorrência dos que investem na medicina de biotecnologia. Isso Agnello Moreira pode afirmar pela própria prática, visto que viajou muito para os Estados Unidos, Canadá, participando de  Congressos Internacionais. Participou de uma entidade americana –  American Society Medical Oncology – que, de quatro em quatro anos, reúne cerca de  15 mil médicos do mundo inteiro. Teve a oportunidade de conhecer um grupo muito forte, nas últimas vezes que lá esteve, da Índia, que está muito avançado na pesquisa de produtos para tratamento de câncer. A Índia sempre teve um conceito internacional de país pobre, onde a doença matava gente na rua. Hoje esse país pesquisa muito, tanto quanto ou mais que os Estados Unidos. O grande investimento de pesquisa na Índia advém de capital alemão, americano e inglês, passando à frente do Brasil na pesquisa de produtos de tratamento de doenças mais difíceis, tanto de doenças infecto-contagiosas, como de tumores neoplásicos.
 
 CONSIDERAÇÕES FINAIS
 
O Trabalho desenvolvido por Agnello Moreira na indústria farmacêutica sempre foi de muita luta, esforço, muito ânimo e sempre realizado na esperança de crescimento e de evolução na busca da facilitação do desenvolvimento da ciência, na busca da cura e do melhor tratamento das doenças. Agnello Moreira pode dizer que venceu na profissão e não se arrepende do caminho que trilhou. Aí está a maior recompensa que a vida lhe deu. Passa a agradecer algumas pessoas que lhe ajudaram nessa caminhada, principalmente o Fundador da Pesquisa de Mercado Farmacêutico no Brasil –  Sr. Triestino Perri – Diretor de Marketing da Laborterápica, que o transformou profissionalmente, orientando-o de maneira sábia e inteligente, foi quem o colocou nessa área, dando-lhe apoio no ramo de pesquisa de mercado e de treinamento de profissionais.
Para ver outra entrevista, acesse também http:  www.grupemef.com.br/
Revista Grupemef   Edição: 53 – Ano: 22 – Publicação: Janeiro / Fevereiro / 2000

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