Igreja dos Enforcados

Paulo Cursino de Moura, em sua obra intitulada  São Paulo de Outrora, págs. 91/97, nos conta a história que envolve a criação da Igreja dos Enforcados, o bairro da Liberdade e todo o sentimento que afligiu a população paulista à época. Onde hoje se situa a Praça da Liberdade, era, antigamente, o Largo da Forca, local onde eram executados os condenados, tanto antes da independência política, como posteriormente, quando vigorava a pena de morte, dada esta por asfixia pelo enforcamento.A substituição do nome Largo da Forca, que abalou e comoveu o São Paulo de séculos atrás, por Praça da Liberdade, que encanta pelo seu lindo ajardinamento, deu-se como uma homenagem à abolição da pena máxima no Brasil.  Uma das lembranças constantes, quando se evoca o passado do Largo da Forca, é a lenda, trágica e sentimental do Chaguinhas – Francisco José das Chagas, que ali foi executado em 1821. O martírio de Chaguinhas é contado de várias maneiras, porém, todos têm a convicção de que ele foi vítima de uma injustiça, por parte dos juízes que o condenaram. Um cronista antigo relata: –   “ Por falta de pagamento dos seus soldos de 5 anos, os soldados do primeiro batalhão de caçadores, destacados em Santos, se revoltaram na noite de 27 para 28 de junho de 1821, sendo apontados como chefes dessa revolta os soldados Francisco José das Chagas   ( Chaguinhas ) e Joaquim José Cotindiba, os quais depois de processados e condenados à morte, foram enforcados e sepultados, como todos os outros que sofreram igual suplício, no antigo Cemitério da Rua da Glória.”“ Em 1821 não havia forca nesta capital, tendo provavelmente se deteriorado e caído a que antes existia.
Por carta régia de 23 de agosto de 1820 foi mandada instalar uma Junta de Justiça e, não podendo funcionar a mesma sem o apêndice, – um patíbulo, o governo expediu, para esse fim, em data de 23 de julho de 1821, um aviso ao Senado da Câmara para que mandasse levantar uma forca no lugar mais público desta cidade e vizinho do Cemitério geral, que era chamado Campo da Forca, e que ela fosse feita de madeira duradoura”. Segundo o Autor Paulo Cursino de Moura, na obra citada, conta a lenda que na manhã de 20 de setembro de 1821, o cadafalso está armado no largo. Sobre ele a forca, o trágico triângulo com uma das faces salientes de onde a corda macabra balança.
Ao rufo de tambores e sons de clarins, a escolta chega.  O tropel dos soldados é lento, contínuo, surdo. A multidão em volta, na expectativa ansiosa pelo espetáculo, compungida, tem curta e opressa a respiração.  Dois são os sentenciados desse dia – Joaquim José Cotindiba e Francisco José das Chagas, que vêm cabisbaixos. 
Depois da leitura da sentença, e após a exortação que a caridade edificante de um capuchinho sempre dispensa aos réus, sobe ao suplício o primeiro sentenciado Cotindiba.  Dado o laço, o corpo cai no espaço, a multidão estremece e a lei é cumprida. Chega a vez do Chaguinhas. Perpassa pelo povo, mudo, uma emoção: a corda, quando o corpo do Chaguinhas é jogado ao ar, arrebenta.  O escudeiro-mor, desapontado, ordena a sua substituição.  Novo engaste, novo nó, nova caída, e a corda, pela segunda vez, arrebenta.  Chovem pedidos de liberdade.  O carrasco range os dentes, negando a solicitação pública. Colocado novamente no patíbulo, Chaguinhas tem um olhar místico e doce, das almas contristadas.  Desse olhar nasceu a primeira irradiação da crença.  Pela terceira vez, o algoz lança o pescoço do infeliz e, pela terceira vez, a corda se rompe.  Então, a população diviniza o condenado e alguma coisa sobrenatural perpassa no ar parado daquela manhã fatídica.  Só na quarta tentativa, o corpo do Chaguinhas balança inerte no instrumento de seu martírio.  A prova da inocência está ali, na teimosia da corda em se negar ao mister do enforcamento, como se a rebelião contra a injustiça partisse da própria coisa inanimada.  O povo assim entendeu, e hoje, tradicionalmente, ainda se venera o Chaguinhas, na convicção da sua inocência pelo atestado que a lenda nos revela, segundo o citado Autor. Conta a lenda, ainda, que quando a terceira corda se rompeu, passava pelo local um tropeiro de nome Demétrio, o qual recebeu ordens do carrasco de dar um laço de couro cru, que o forneceu a contragosto, porém foi forçado a tal.   Eis a lenda popular transformada em religiosa veneração.  Sobre a indumentária do suplício, não é menos interessante a narrativa do passado: – “  Os réus, antes de serem enforcados, faziam retiro espiritual, esperando a hora fatal.  Depois de comunicada a eles a sentença e feitas as exortações espirituais pelo sacerdote, subiam os pacientes os degraus do patíbulo, vestidos de camisola, sendo-lhes passadas as cordas ao pescoço, os braços atados e a cabeça e o rosto cobertos com um capuz, exercendo o carrasco a sua tristíssima função.  Removida a tábua sobre a qual os infelizes pisavam, eram estes atirados ao espaço, comparecendo a esse horroroso ato uma multidão de espectadores de todas as classes sociais, atraídos ao lugar: uns pela curiosidade e interesse, e outros pela simpatia que lhes inspirava o desgraçado que ia ser supliciado.  ”Por causa da convicção da inocência de Chaguinhas, nasceu o culto que se faz até hoje em sua memória na Capela da Santa Cruz dos Enforcados, no Largo da Liberdade, mantida por uma irmandade organizada em 1902,  por D. Antonio Cândido de Alvarenga, então Bispo de São Paulo.  A lembrança da história de Chaguinhas voltou à baila com a reconstrução da igrejinha.  O que se sabe a respeito da devoção de Chaguinhas é que “ Olegário Pedro Gonçalves e Chico Gago foram os iniciadores da devoção que era mantida junto à Cruz levantada no terreno, isto há mais de cinquenta anos. Promoviam a reza no largo da Forca, que era assistida por grande número de devotos. O Chico Gago era criação da casa de um antigo marchante, conhecido pelo nome de Juca Frade e morador no mesmo largo. As primeiras festas em honra da Santa Cruz foram celebradas, antes da Abolição, por Antonio Bento e não tiveram mais interrupção.”  A triste recordação moderna do largo da Forca reside no antigo cemitério dos Enforcados ou dos Aflitos. 
O velho Beco dos Aflitos lá está, terminando na Capela do mesmo nome, cheio de mistério e de velas acesas por mãos piedosas à intenção das almas que ali repousavam no Cemitério, depois transformado num quarteirão de habitações particulares.   A capela era no meio do Cemitério, na mesma posição em que se encontra a rua, a mesma necrópole antiga.   A sua construção data de 1774, ao tempo do Bispo Frei Manuel da Ressurreição, pelo que, cremos, a data, 1869, que na sua fachada se lê, é referência à possível reforma por que passou em época posterior à fundação sob os auspícios de Nossa Senhora dos Aflitos, ou, ainda, à instalação do Cemitério, quando lá existia a igreja, por volta de 1818. Propriedade da Mitra, o Cemitério foi vendido em lotes para residências privadas. 
A tradição desse cemitério acompanha a do Largo da Forca, eis que era destinado a recolher cadáveres de supliciados e de indigentes, em féretros humílimos, contrastando com a suntuosidade dos funerais faustosos dos burgueses do período monárquico, inumados no interior das igrejas.   O Beco dos Aflitos é um dos poucos existentes na cidade e que relembram a nenhuma simetria dos urbanistas de outrora. Beco sem saída, antiquado.   Hoje, os da mesma espécie, abertos pela conveniência de senhorios abastados no centro de grandes áreas de terreno, denominam-se vilas.  O que foram esses becos sem saída : Beco dos Barbas, hoje Travessa Porto Geral;  Beco do Zunega, no Largo do Paissandu e Beco da Boa Morte,  nos fundos do Carmo.   O dos Aflitos tem sua utilidade para os crentes e para a crença nos destinos sobrenaturais dos que penam no Além.  Hoje, temos  as capelinhas dos Enforcados e dos Aflitos.
Fonte: São Paulo de outrora – Paulo Cursino de Moura
 

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