Machado de Assis e seu contexto social

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A obra de Machado de Assis é repleta de erudição.

O autor possui um estilo excêntrico, riquíssimo e instigante. Mostra seu conhecimento em várias áreas do saber, desde a filosofia, teologia, história, geografia, como também  de outras culturas e idiomas.

Daí que, para se entender o texto de Machado, temos de lançar mão da intertextualidade, técnica em que os textos dialogam entre si e, portanto, se explicam.

Agora e sobre o contexto social de Machado? Qual a influência sobre sua obra?

Sylvia Colombo, sobre as comemorações dos cem anos da morte de Machado de Assis (1839/1908), em reportagem para a Folha de São Paulo, Ilustrada, E6, sábado, 08/03/2008, Festa Busca Contextualizar Machado-Debate sobre o fato de o surgimento do autor ser ou não um “milagre” é um dos que devem estar na pauta das discussões, discorre sobre o modo como o autor modelou seu estilo e criou seu universo, o que leu ( sua biblioteca possui 800 volumes ) e o que ouviu (criou um espaço, denominado “Clube Beethoven”, para ouvir músicas e jogar xadrez, uma de suas paixões).

Na reportagem, cita o poeta e crítico Ivan Junqueira, para quem a   preocupação é distinguir o que Machado leu do que realmente o influenciou. “ Importantes mesmo foram Laurence Sterne, Diderot, Schopenhauer, Xavier de Maistre, Shakespeare, Cervantes e Dante.”.  Machado lia, a princípio, em francês. Depois passou ao inglês. No final da vida aprendeu alemão e um pouco de grego, mas nunca chegou a ser fluente nessas línguas.

“Ele lia brasileiros e gostava de José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo, mas não se pode dizer que foram leituras que o influenciaram.”, diz.

Junqueira chama Machado de “milagre”, pelo fato de ter surgido a partir de um contexto social humilde. A mesma opinião é compartilhada pelo presidente da ABL (Academia Brasileira de Letras, da qual Machado foi um dos fundadores), Cícero Sandroni: “Era um brasileiro pobre, gago, e epilético, que através do esforço pessoal e da leitura, se transformou”. O pesquisador e ensaísta Ubiratan Machado, autor de “A Vida Literária no Brasil durante o Romantismo” e que lança nos próximos meses um dicionário de mais de 2000 verbetes sobre Machado, acha que se deve deixar de pensar que o surgimento de sua literatura tem algo de milagroso.

“Ele não era um pobrezinho. Primeiro porque ser mulato não era depreciativo, então. Alguns dos homens mais importantes do Império eram mulatos. O fato de seu pai ser um agregado, também não, pois isso era bastante comum. Ter nascido no morro tampouco era um drama. Na época, rico também vivia em morro. E, depois, quando tornou-se funcionário público, Machado passou a ganhar muito bem.”
Ainda, para ele, o tão celebrado autodidatismo também não é algo único no caso de Machado, pois muita gente formava-se assim naquela época.

“Enfim, milhares de pessoas enfrentam o que Machado enfrentou na vida. Não é isso que confere valor à sua literatura, e sim suas qualidades próprias”.

O estudioso também ressalta que a imagem soturna de Machado, que se solidificou com o tempo, foi a que predominou apenas nos últimos anos de sua vida, principalmente após a morte da mulher, Carolina, em 1904. “Até então, ele havia sido um homem muito alegre e muito espirituoso”, conclui.

De tudo isso, pode-se dizer que Machado sempre será uma instigante fonte de pesquisa e inspiração, dado o altíssimo nível de sua produção literária e caráter pessoal.

Visite o site: www.machadodeassis.org.br

Dra. Márcia Regina Moreira (cientista social, formada pela PUC/SP, advogada,  especialista em Direito Civil, com Pós-graduação pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo – FADUSP) – especial para a REVISTASP.

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